EL TRAPEZIO – Entrevista Xosé Manuel Cid: “É preciso entender a mudança das fronteiras, ainda que haja algumas mentais”

Xosé Manuel Cid
Xosé Manuel Cid

O professor e antigo vice-reitor da Universidade de Vigo será o primeiro diretor da Academia de Ciências Sociais do Couto Misto
No primeiro sábado de julho, como acontece todos os anos, realizou-se a reunião da Associação dos Amigos do Couto Misto para investir novos juízes honorários, que simbolizam a governação do antigo território raiano. Mas este ano trouxe uma novidade que muitos ansiavam: uma academia dedicada às ciências sociais com o objetivo de estudar e investigar o Couto Misto, recuperando documentação histórica com paradeiro desconhecido.
Um passo “importante” para o primeiro diretor nomeado da Academia, o professor Xosé Manuel Cid, que explica ao EL TRAPEZIO a importância desta nova organização e a relação que pretende estabelecer com as gentes e o território do Couto Misto. Uma região que, durante cinco séculos, manteve privilégios sobre outras zonas da raia e poderia ter sido o segundo enclave ibérico, não fosse o Tratado de Lindes, assinado em 1864, ter acabado com esta realidade.

Que ligação tem com o Couto Misto?
Comecei a ter um certo interesse por entender e difundir a história deste território no final do século passado. Na altura, era vice-reitor para a Extensão Universitária da Universidade de Vigo e organizei um curso de verão, coordenado com a UTAD, sobre o Couto Misto. Já o tinha visto anunciado antes, mas nunca chegou a ser realizado e pensei: “Qual será o problema?”. Faltavam recursos humanos. Então desenvolvi a ideia e contactei os intelectuais mais prestigiados de ambos os lados da raia que tinham investigado o tema. E assim começou tudo.
Depois juntei-me à Associação dos Amigos do Couto Misto, que continuou esse trabalho importantíssimo de resgatar personalidades da nossa cultura [galaico-portuguesa] que não são conhecidas (ou que, por parte de alguns poderes, não se querem conhecer). É o caso de Luis Soto, um professor que conseguiu fugir durante a perseguição franquista para Tourém, território ligado ao Couto Misto pelo Caminho Privilegiado. E também de Manuel Barros, professor de Tourém que ali, precisamente, deu refúgio a muitos galegos que fugiam do fascismo.
E porquê uma Academia do Couto Misto?
Todos os anos nomeamos três juízes honorários do Couto Misto, lembrando a figura do juiz eleito pelas três aldeias para governar o território. Mas entendemos que era preciso ir mais além, que não havia um vínculo dos juízes honorários com o Couto Misto depois da nomeação. Por isso decidimos criar a Academia do Couto Misto para dar mais conteúdo ao projeto, com estudos das mais variadas ciências sociais que não existem na Galiza. E tendo o Couto Misto como núcleo desta academia, podemos também dar continuidade aos estudos transfronteiriços e recuperar alguma documentação histórica que, entretanto, se perdeu.
Vamos tentar incorporar 20 a 25 investigadores, tanto galegos como portugueses, que tenham já ou que pretendam começar estudos sobre a fronteira. Seja no âmbito da economia como do turismo, da história, da antropologia, da sociologia, da pedagogia, entre outros. É preciso trabalhar o Couto Misto tanto pela aposta no valor do património do passado como para descobrir alternativas de futuro para as terras da Raia.
Diana Gonçalves, Armando Fernández e Consuelo Castro Rei foram os juízes honorários nomeados este ano. O que destaca sobre cada um deles?
É difícil dizê-lo assertivamente sem ler a ata da sua nomeação, mas são, sem dúvida, figuras importantes. Houve muitos mais nomes em cima da mesa, mas este ano quisemos pôr fim a uma tendência não intencional de nomear mais homens do que mulheres. E fizemo-lo não apenas para efeitos estatísticos, mas pelo enorme potencial que as mulheres que escolhemos têm.
A Diana é uma mulher da raia, com o coração dividido pelos dois lados e a potencialidade de conhecer muito bem a alma galego-portuguesa. Ela representa essa relação de fronteira. Já lhe propusemos que escreva uma tese de doutoramento, com um orientador galego e outro português, para perceber o que significou a mudança das fronteiras. Não digo desaparecimento porque ainda há fronteiras – algumas mentais – por muito que as nossas Tanxugueiras digam que não [risos].
O Armando, para além de ser médico, é um bom poeta e também escreve e compõe música. Com a Maria do Ceo, uma mulher do Norte de Portugal que já é juíza honorária, criou um hino para o Couto Misto que termina ao jeito português: “o povo é quem mais ordena dentro de ti, Couto Misto”. Neste caso, a Maria do Ceo compôs a canção, mas entendemos também que o autor da letra merecia esta distinção.
E a Consuelo é advogada do Estado espanhol, uma galega que representa a máxima jurisprudência em Madrid. Entendemos que ela pode transmitir ao Governo o que significa o Couto Misto, não para recuperar uma “república esquecida”, como é Andorra, mas pelo menos para se tenha alguma consideração legal e política, no sentido de preservar a identidade histórica entre as três aldeias que hoje fazem parte de dois concelhos distintos.
Um território “esquecido”, mas que, na sua ótica, é importante conhecer. Porquê?
Eu acho que os povos que esquecem a sua história não têm futuro. O facto de termos uma entidade que, durante cinco séculos, teve privilégios de poder atravessar um caminho exclusivo, de transacionar quaisquer tipos de produtos comerciais, é bastante singular. E mesmo quando o Couto Misto foi extinto, as pessoas não deixaram de se relacionar, quer fosse pelo casamento, por relações comerciais ou mesmo pelo contrabando.
Isso é o que faz com que este território seja bastante interessante para geógrafos, antropólogos, historiadores, pessoas da comunicação, que difundem essa realidade desde uma perspetiva histórica. Da mesma maneira que também difundem um castro celta onde já não vive ninguém, mas que, ainda assim, não deixa de ser importante para organizarmos o nosso futuro.
Além disso, o Couto Misto é uma prova do quão flexíveis podem ser as fronteiras. Aqui na Galiza preocupa-nos muito que nos movam os marcos, mas é natural que eles se movam. Ainda para mais pela continuidade que existe entre os nossos dois povos em termos naturais, linguísticos ou culturais.
Precisamente a propósito do reconhecimento do Couto Misto, o deputado Mario García fez questão de manifestar recentemente, no parlamento catalão, a sua identidade raiana. O que pensa desta iniciativa?
É muito importante. No parlamento espanhol já se tinha falado do reconhecimento, pelo menos simbólico, do Couto Misto, por iniciativa de alguns deputados de Ourense. Sendo na Catalunha, tem um significado ainda maior pela perspetiva que tem de ser uma nação diferente e pela consciência de país bastante generalizada. E ainda para mais partindo de um deputado que nasceu em Randín, a dois quilómetros do Couto Misto.
É preciso então colocar o Couto Misto no mapa…
Obviamente que sim. Penso que agora, com as redes sociais e com novos informadores, é possível chegar a mais gente e despertar curiosidade. Onde estava esse território que não seguia as leis portuguesas nem as espanholas, que escapou às ditaduras nesses dois países e onde se tomavam decisões democráticas? Não tenho dúvidas que esse modelo de democracia, de república, poderia exportar-se pelo mundo inteiro. Para nem falar do vocabulário específico que existe ainda nessa região e que não se utiliza noutras zonas. Qualquer aspeto desses pode chamar à atenção.
Precisamos de viver a diversidade face a tanta homogeneidade que nos tentam impor. Se valorizarmos todas as identidades, podemos ter no futuro uma globalização mais decente da que temos hoje, que prioriza a violência e a venda de armas em vez do bem-estar das pessoas. É necessário explicar isso àqueles que nos governam e que deveriam estar já capacitados para isto…