Publico.pt – Couto Misto: o que é, onde está e por que falamos dele, 150 anos depois

Uma moção com três pontos e um objectivo: ressuscitar uma terra esquecida. Lá pelo meio há Portugal. Na fronteira com a Galiza, começa a quebrar-se o silêncio.
Paulo Costa e Pedro Castro Esteves

Andar pelas ruas estreitas das três povoações que fazem o Couto Misto é ver pouca gente e, as que se mostram, apontam para um lugar. Neste caso, para uma pessoa. “Sobre isso é melhor ser o Cesário”, é resposta comum. Outra resposta seria o indicador apontado para a casa do “homem de acordo” do “pueblo” de Santiago de Rúbias.

Bom acaso ter sido domingo. Com o trabalho na “granja” — um aviário — e as corridas aos municípios mais próximos para tratar de assuntos, o tempo de Cesário reparte-se por muita coisa. Mas dá a ideia que há sempre tempo para falar do Couto Misto. Sobre o aparente “monopólio” de informação que detém na região, Cesário González Veloso aponta para o ano de 1995 como o tempo em que se acordou o que estava adormecido.

“Os investigadores começaram a vir por aqui, um deles o Garcia Mañá, e começaram a interessar-se por isto. Nós, os que vivíamos aqui, sabíamos disso tudo mas foi a partir dessa altura que se começou a falar mais fora das três aldeias”, conta o também presidente da Associação Amigos de Couto Misto.

Cesário relembra essa época na Igreja de Santiago de Rúbias, da qual tem a chave. Cá fora, sentado num banco, há uma estátua do último juiz de Couto Misto. Era português — nasceu em Tourém — e chamava-se Delfim. Era no banco que se senta que se assinavam os acordos e os tratados das três aldeias galegas.

Com o interesse a crescer, surgiria uma associação. A Associação de Amigos do Couto Misto, que se ergueu em 1998. A partir daqui, até aparece “uma mãozinha” portuguesa para ajudar a desenterrar história com o aparecimento da ajuda de universidades como A de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Uma história desenterrada e revitalizada ao longo da década seguinte mas que ganha um capítulo importante em 2017. Quase duas décadas após o ressuscitar do interesse na região, para Cesário, a proposta de dupla nacionalidade pode, no mínimo, “dar vida às aldeias que estão mortas”.

Cesário tenta forçar essa vida contando e partilhando a história da região, mas nem sempre é fácil. “Há que ter coisas para ver. Não é só ver a igreja e desertar. Trago aqui pessoas, conto-lhes a história e em 20 minutos está feito. Não há onde dormir, onde ir comer. No fundo, tem de ter coisas”. Cesário não está sozinho nesta luta. É que se Luís Garcia Mañá luta fora do Couto, há quem o faça dentro.

Em Meaus, a antiga capital comercial, mora Sérxio Alvárez. É o mais novo dos três homens de acordo e um dinamizador. “Primeiro restaurei a igreja, depois as fontes, depois deu-me para reparar o caminho privilegiado”, conta, no terraço de sua casa.

Sérxio volta a Meaus aos fins-de-semana e quando pode. A casa era da mãe e também passou por um restauro. De Portugal guarda boas lembranças — mostra uma fotografia com Passos Coelho e o presidente da Câmara Municipal de Montalegre – e visita-as com frequência: “Brevemente farei aqui um manjar com portugueses e com música. Serão metade portugueses e a outra metade galegos”.

Sobre a dupla nacionalidade, lembra propostas do Senado e do Parlamento Galego acerca de ajudas para a região. Chegaram poucas. Do outro lado da fronteira, é peremptório: “Em Portugal são comités e pouco mais”. Mostra-se, no entanto, receptivo a tudo que possa trazer dinamismo e gente ao ex-enclave.

Quem não tem conhecimento de algo se estar a passar em Portugal é Nicanor Veloso, homem de acordo do povo de Rubiás. Numa paragem de autocarro, recorda a “Galiza bonita” e diz não a encontrar na “Galiza feia” actual. “Era preciso mais vacas nos campos”, afirma fazendo menção ao despovoamento e desertificação da região.

Está um dia cinzento e é terça-feira, dia de Entrudo. Há mais carros na rua, e a região está mais deserta do que o habitual. A poucos quilómetros de distância há o Entrudo de Xinzo de Límia, um dos mais conhecidos da região.

Longe do movimento e da cor, o mais velho juiz espera companhia na paragem de autocarro do concelho de Calvos de Randím. No meio do silêncio que afunda Rubias, Nicanor profecia: “Os campos estão desertos e os jovens já não voltam”.

Xadrez político entre Espanha e Portugal

“Iniciar um diálogo com o Governo português para que, tal como ocorrido em Olivença e Táliga, se adoptem acordos que permitam desfrutar da dupla nacionalidade”. É esta uma das reivindicações da moção apresentada pelo PSOE no Senado Espanhol e quem a assina é Luís Garcia Mañá, senador do PSOE pela província de Ourense e vice-presidente da Comissão recentemente criada para combater o despovoamento. Mas está enganado quem pense que esta proposta é um capricho recente de um senador espanhol.

“A minha avó, que nasceu em Calvos de Randím, a um passo de Tourém, foi a primeira a falar-me deste povo misto. No final do século XX, eu e um grupo de amigos pensamos: ‘esta gente tem uma história muito bonita’. Era preciso mostrar-lhes que não eram pouca coisa”, recorda.

E assim foi. Depois de muitos anos no esquecimento, no final do século, aparece a Associação de Amigos do Couto Misto e, a partir de 2000, Luís García Mañá dedica-se à escrita de vários livros que abordam aquela região como: Couto Misto: Uma República esquecida ou Menino morreu. “De certa forma, estas iniciativas permitiram criar uma certa auto-estima a gentes economicamente pobres, mas com uma história rica e peculiar.”

Na proposta entregue ao Senado estão listadas algumas dessas peculiaridades, que fizeram de Couto Misto uma república a operar entre Portugal e a Galiza: uma espécie de democracia directa, em que cada povo elegia o seu próprio alcaide, a não obrigação de enviar soldados aos exércitos portugueses ou espanhóis, direito de asilo a fugitivos ou uma espécie de zona de ninguém, que permitia circular por cinco quilómetros por aldeias galegas e portuguesas “sem que nenhum agente de autoridade pudesse autuar.

Casamentos mistos, caminhos, contrabando, preenchem a história do Couto Misto desde o século XII. Mas a nacionalidade sempre terá sido o privilégio mais distintivo dos habitantes destes 26 Km² entre Portugal e a Galiza. E por isso terá sido essa a razão de trazê-lo novamente para a frente.

Até meados do século XIX, era na boda que se decidia a que nação pertencer. Colocavam um P (de Portugal) ou G (de Galiza) junto à porta de casa e beberiam à saúde de um dos reis. Esta e outras particularidades do território- assim como nos outros povos promíscuos- nunca caíram bem a ambas as coroas. Não é surpresa, então, que a república democrática tenha deixado de o ser pouco tempo depois.

A ligação de Portugal com a região parece inegável. Actualmente, em Portugal, não existe discussão política acerca do assunto. Há quem discuta o tema e promova o Couto fora dele. Nesses casos, numa cerimónia que ocorre em Julho na igreja de Santiago de Rubiás, são nomeados juízes honorários. São várias personalidades espanholas, mas contam-se pelas mãos as portuguesas. Para o senador espanhol, esta falta de debate deve-se ao facto de “ser muito discutível que, no Tratado de Lisboa de 1864, a região tenha ficado integrada na Galiza”. As negociações e cedência, relata Luís Garcia Mañá, a partir do que leu, “prejudicavam Portugal”.

Recorde-se que, com o Tratado de Lisboa, Portugal perdeu o direito sobre os três povos mistos de Santiago de Rubiás, Meaus e Rubiás, recebendo “em troca” as aldeias de Soutelinho da Raia, Cambedo e Lamadarcos, pertencentes a Chaves. O Couto Misto incluía uma franja desabitada, que actualmente pertence ao concelho de Montalegre, na altura importante por se tratar de uma zona de pastagens, hoje ocupado por geradores eólicos.

Quanto à cooperação entre Portugal e a Galiza falamos do Programa Operativo de Cooperação Transfronteiriça Espanha e Portugal (POCTEP), estruturado em cinco áreas de ligação entre os dois países — uma delas a euro-região Norte-Galiza — conta com cerca de 75% de ajuda de fundos europeus para apoiar o desenvolvimento das regiões fronteiriças.

Mesmo sendo difícil apontar para a fatia exacta do orçamento de 267 milhões de euros de fundos europeus que foi dirigida à região Norte-Galiza, é facilmente perceptível a falta de apoio às regiões mais rurais e ao Couto Misto em particular. Do lado de lá da fronteira, o dinheiro alocado para a região deixa muito a desejar. Segundo o “Programa Operativo FEDER de Galicia”, foram alocados para a restauração da igreja de Santiago de Rubiás dos Mistos um montante a rondar os 25 mil euros. E é tudo.

“A aquecer lentamente” será talvez a forma mais indicada de descrever o trajecto mediático do triângulo composto por Rubiás, Santiago de Rubiás e Meaus. Desde o aparecimento da associação aos livros publicados, passando pelos meios de comunicação.A divulgação ainda é pouca, mas mostra sinais de um interesse em crescendo. Algo que esta proposta pode ainda trazer à região. Como se lê na própria moção: “Resgatar do esquecimento esta terra mágica da fronteira hispano-portuguesa” é um dos objetivos.

Em Julho, no primeiro fim-de-semana, realiza-se a condecoração dos juízes honorários. Garante sempre a presença de órgãos de comunicação social. É um reconhecimento de pessoas do mundo da cultura, ciência, arte e de todos que difundem o Couto Misto e a cultura comum de Portugal e da Galiza. É também a altura em que há mais gente na região.

Este interesse mediático, impulsionado pelo crescente interesse que homens como Garcia Mañá têm promovido, vem dando frutos. Recentemente, o Couto Misto tem fugido dos livros de história para os projectos-lei. Um dos mais importantes reconhecimentos terá sido em 2007. Nesse ano, a Câmara dos Deputados e o Parlamento da Galiza aprovaram iniciativas que permitiram reconhecer a singularidade da região e tomar medidas para alavancar o seu desenvolvimento.

O fado em galego

Voltamos ao terreno. Carmen Penim nasceu em Covas — pequena aldeia raiana —, cresceu em Meaus, estudou na Holanda, vive em Vigo e hoje está em Braga porque precisa de um piano. É a primeira vez que vem ao Minho comprar um instrumento para a banda.

Mas é preciso. Entretanto começam as gravações do próximo disco dos 2naFronteira e por isso, Carmen veio acompanhada de Maurizio Polsinelli, pianista italiano. A banda está sediada em várias latitudes, recebeu várias influências, tal como Carmen. Até porque a emigração, em terras raianas é realidade frequente.

“Quem viveu a emigração nunca acaba de chegar a casa, nunca. A tua casa não é a tua casa. Eu sinto-me bem em qualquer lado, mas desejo sempre ir a outra parte, mas tens a ´morrinha´, a saudade de tua casa de Meaus.”

Na “Casa dos Pianos”, sentada num banco, enquanto Maurizio testa instrumentos pela loja, a cantora lembra a nomeação para juíza honorária de Couto Misto em 2016 pela Associação de Amigos do Couto Misto. “Chegas ali, e recebes um prémio em tua casa, e podes cantar em tua casa. É como se me abrissem as portas, de par em par, e me dissessem: ‘Vem. Volta.’”.

Guarda memórias da avó, com quem fazia os quilómetros do caminho privilegiado para fazer compras em Tourém, a vida na raia e a história de um povo que caiu no esquecimento. Esse sentimento está patente em muita da discografia da autora. A “Rosa do Couto Misto” e a “Lavandeira”, junta-se “Alálá de Turim”, que é como explica, “uma música que embora não diga a palavra Couto Misto, na minha cabeça estavam essas paisagens e essas memórias”.

Para além de cantora, Carmen é também professora. Junta a isso o papel de activista em defesa da ruralidade e de membro na Associação. Acredita que a questão da dupla nacionalidade “pode ser uma forma da Associação fazer muito ruído e chamar a atenção”. Prefere deixar isso para a “esfera política”.

Já que se fala de política, por que não falar do próprio processo no antigo Couto Misto? Para Carmen, esteve em vigor, antes de qualquer outro lado, uma espécie de “democracia directa”. O papel que cabe agora a Cesário, Sérgio e Nicanor, era detido por quem era eleito, segundo a vontade de cada uma das aldeias e tinham “poderes de decisão”.

Quanto à ligação dos habitantes de Couto Misto com os do outro lado da fronteira, é mais contundente. “Nunca houve diferenças. Sim, a que está do outro lado é portuguesa, mas não é como uma francesa, para nós é das nossas”. Até porque não era só a proximidade que unia os dois povos, mas também uma necessidade. Por caminhos portugueses e espanhóis, ambos os povos eram cúmplices do contrabando. Palavra que, do outro lado, tinha outro significado: “comércio livre”, já que a fronteira, antes de Franco, nunca tinha “existido”.

Acredita que a inexistência de fronteira durante muito tempo ajudou a criar uma identidade comum. “É algo que faz parte de nós. Ir a Tourém a pé e a gente de Portugal vir ali também. E continua assim. Para que serve a fronteira, para nada!”, atira.

O Couto Misto tem um hino que na última estrofe diz o seguinte: “O povo é quem mais ordena; dentro de ti, Couto Misto”. E se parece remeter para um verso português não é por acaso. Nos anos 70, com dez anos, María do Ceo foi do Porto para Ourense. O nome não engana. Há um coração dividido entre duas terras e isso desloca-se para a música. Às melodias melancólicas do fado juntou a língua galega e fez carreira.

O encontro com o “extraordinário” Couto Misto dá-se a partir do contacto com um amigo de muitos e muitos anos”, Luís García Mañá. Surge na altura em que o agora político começa a escrever livros sobre a região. Por ser uma fusão de Portugal e Espanha, “ tal como o é o Couto Misto”, a cantora portuense foi agraciada como juíza honorária: “Quando eles me condecoraram escolhi não falar e decidi cantar o hino, que tinha escrito em forma de agradecimento. Via pessoas a chorar, pois na letra, estava a relatar o que é verdadeiramente o Couto Misto”, relembra.

María do Ceo reconhece que, em Portugal, o assunto é pouco falado e, portanto, pouco conhecido. Constata isso em programas de rádio, para os quais é convidada, mas não se admira: “É um espaço muito pequenino, com 30 km2 se tanto”. São ainda menos. O que leva María do Ceo a dizer que o triângulo composto pelas três aldeias vive mais na intelectualidade do que no espaço físico que ocupa.

Até porque, tal como afirmava Carmen Penim, a ruralidade vai-se perdendo. “Já passaram muitos anos até chegar e hoje tudo se perdeu. Há gente a viver com alguma idade, pois toda a gente saiu das aldeias para as cidades”, afirma a cantora luso-galaica. Espera que a troika, Portugal, Galiza e Espanha se entendam e, com propostas como a de García Mañá, se devolva alguma dignidade aos povos que ficaram nas aldeias. Dinamizar o espaço físico com sítios que prendam as pessoas ao sitío, como ter algo tão elementar “como um café”, seria o primeiro passo. Até lá, Couto Misto vai vivendo na cabeça de quem o quer ver renascer.

De Vilar de Perdizes vem um evangelho diferente

Vilar de Perdizes acordou num rebuliço. Tem sido assim há alguns dias na freguesia do concelho de Montalegre. Há coisas que se escondem atrás das paredes. Há gente entusiasmada e quem lidera o entusiasmo caminha pelas ruas vestido a rigor. É uma vida ligada à ruralidade portuguesa, à cultura e às (várias) tradições. “Sempre cumpri tanto o calendário cristão como o pagão”, avisa António Lourenço Fontes numa manhã cinzenta, mas que não incomoda quem trabalha com matéria pesada.

No dia de hoje, padre Fontes, entusiasmado, é uma espécie de mestre-de-obras, enquanto percorre a pequena freguesia do concelho de Montalegre. “Vamos por aqui. Venham ver a casa que estou a restaurar”. É que há poucos dias foi descoberta uma arca. Por detrás das escavações, com lanternas e holofotes vê-se um grande rectângulo que esconderia centeio e afins das mãos do Estado português. Há dois homens que trabalham aí. Um pouco mais à frente, mais dois no restauro de uma casa.

Padre Fontes leva-nos pelas ruas estreitas de Vilar de Perdizes até uma casa, comprada a um emigrante, a “precisar de obras”. O pároco já tem planos para o que vai haver no piso de cima — “um espaço de lazer”, em baixo está “aberto a sugestões” para transformar. A palavra transformar talvez seja a mais indicada para resumir o trabalho de padre Fontes na região. Um EcoMuseu em Montalegre, às noites de sexta-feira 13, que trazem milhares de pessoas à vila de Vila Real ou os “Congressos de Medicina Popular” em Vilar de Perdizes são só alguns dos exemplos do trabalho de António Lourenço Fontes na região de Trás-os-Montes. Lá pelo meio, as questões da fronteira e o Couto Misto.

Quando é questionado acerca do ex-enclave, a resposta é esta: “O Couto Misto, só visto!”, atira prontamente, citando um texto que escreveu, dissecando as particularidades do território. A poucos metros da acção, fica a casa do montalegrense, uma espécie de centro de operações da área. Pelo meio do caminho, junto a umas grades, um telefone escondido, que o liga a tudo o que se passa em Vilar de Perdizes.

Se as ruas andam mais animadas, dentro da casa do padre há de tudo. É a música clássica da rádio espanhola — “a única que apanha nesta zona” — que ecoa em todas as divisões, ou o telemóvel que toca a pedir um pouco de tudo a um homem que vai dando ainda o que consegue à região.

Textos foram muitos, intervenções e viagens idem. A ligação ao Couto Misto encarrilha com uma dessas viagens a Braga. “Entretanto fui a Braga e encontrei umas revistas que continham toda a documentação e tratados sobre o Couto”, recorda. Na biblioteca, guarda uma imponente colecção de livros que tocam em quase tudo. Logo à entrada uma colecção de revistas Liber Fidei. É lá que estão as negociações de tratados antigos, entre eles os fronteiriços.

Folheando os vários volumes de uma revista com “Braga” em letras garrafais, padre Fontes considera que o maior mérito da proposta e de todas as iniciativas sobre o Couto será a de “levar os residentes a conhecer a sua história, que eles próprios desconheciam”. António Lourenço conhece bem essa e outras histórias. Nota na proposta de dupla nacionalidade alguma “utopia”. Mas lembra o caso de Olivença e uma atitude idêntica do Estado português.

“[No caso de Couto Misto] acontece como no caso de Olivença. Nas nossas costas ficamos novamente na mesma situação: afastados de uma República associada à República Portuguesa”. “A história [da região] está enterrada dos dois lados”, reitera. Do lado português, a cova é mais funda, mas do outro lado da fronteira “se falarmos com um espanhol em Madrid ou Barcelona só a conhece se for galego”.

E por isso, e para combater este esquecimento, a proposta de Luís Garcia Mañá, em 2017, “é significativa” pois, para além de ser coerente com a História, é também uma “reposição de direitos humanos”. Como escreveu outrora, em relação ao Couto Misto: “Merece uma reparação histórica este atropelo internacional, feito pelas coroas fidelíssima e católica, enganando e forçando os povos inocentes, mistos que ainda hoje se dizem e desejam ser”.

A “mini-Andorra” onde os bares são a casa uns dos outros

Entre assobios e correrias, Genaro Diaz vai organizando o rebanho de ovelhas que, hoje, como diz, “está mais louco do que o costume”. A presença de câmaras e tripés no terreno delas causa-lhes algum desconforto. Genaro não desvia o olhar do trabalho diário. Entre tratar dos animais e semear para comer, os dias vão passando numa casa com vista privilegiada para a serra.

No início da década de 1970, a paisagem era outra. Partiu para Ourense à procura da qualidade de vida que Santiago de Rúbias não lhe oferece. A esposa, Chelo Alonso seguiu-lhe o rasto em 1975. Ele era cozinheiro, ela doméstica. Estiveram por lá uma vida, longe das origens e do campo, que só voltaram a pisar em 2008.  Agora, dedicam-se ao que a terra lhes dá. “Dedicamo-nos a isto. A pouco. A nada”, revela Chelo apontando para os animais e para as batatas.

Quem regressa parece fazê-lo já em idade de reforma. O tempo sobra e sente-se falta de lugares para conviver. “Era bom que aqui houvesse uns bares, um restaurante, mas não há nada”. A falta de soluções obriga-os a serem criativos. “Às vezes a minha casa faz de bar, outras vezes a casa do vizinho”.

O marido vai frequentemente a Tourém para beber um vinho com os amigos. Ela também já tem vindo para Portugal, país que conhece bem. Ficou encantada com Fátima nas duas vezes que lá foi. “Fui por uma urgência, mas saí encantada”. Levou a família toda na segunda jornada. “Fomos todos. Foi muito bonito, mas agora os filhos têm a vida deles”.

O casal viu os dois filhos partirem para Pontevedra e Ourense. Este parece ser o processo natural dos jovens do triângulo misto. “Eles [os jovens] aqui não têm futuro nenhum”. Chelo acredita que, mesmo que a proposta de Luís García Mañá seja aceite, nem isso trará os jovens de regresso à aldeia. A proposta levanta-lhe outra questão: “E se temos de pagar impostos aqui e em Portugal?”. A ausência de juventude no Couto Misto já não é de agora. “Muita gente, desde os antigos, emigrou e nunca mais voltou”. Chelo deixa uma sugestão: “Sabes como voltariam? Se voltássemos a ser mistos”.

A meio caminho entre Santiago de Rubiás e Meaus, um rebanho de ovelhas complica o trânsito. Vai seguindo sem desvios sob instruções de Marcial Rodriguez que todos os dias, quando o relógio bate nas 12h, passa por ali em jeito de passeio.

Não há rua que não conheça no triângulo do Couto Misto. Durante décadas, fez chegar as cartas às dezenas de casas da região. Tinha carro, o que facilitava a vida ao carteiro. Cumpriu a tarefa até aos 65 anos, altura em que se reformou e passou a dedicar-se inteiramente ao campo. “Antes também tinha vacas. Sete ou oito, mas agora só tenho ovelhas”, revela.

Depois do pasto, vai “colher uns repolhos no campo ali em baixo”. No meio das couves, sachola em punho, fala do filho que, como grande parte da juventude da zona, abalou para Ourense. Herdou do pai o engenho para distribuir cartas. A Couto Misto vem todos os fins-de-semana e às vezes à semana, quando não há correspondência para entregar.

Marcial gosta de o ter cá e sempre lhe dá carne e legumes, “tudo caseiro”, para levar para a cidade. “Também costumo ir a Ourense ou a Xinzo para estar com o meu filho e o meu neto”.  Para os lados de Portugal vai pouco. Pelo menos não tanto quanto gostava. Até porque algumas coisas são mais baratas do lado de Montalegre. A fronteira agora está livre e “há quem passe com areia, batatas, cimento”. O dialecto nunca foi uma barreira. Por vezes percebe melhor o português do que o castelhano. “Estamos muito próximos – Portugal e Espanha – e isso facilita a comunicação. Não tenho dificuldades em entender o português”.

Viaja no tempo para recordar peripécias que os seus 76 anos lhe permitem lembrar. Esteve na Suíça onde se sentiu em casa. Trabalhou rodeado de galegos num canto suíço onde Portugal não chegava na altura. “Só trabalhavam galegos comigo. De Portugal, nada”.

O marido nasceu no Couto Misto, mas Arminda veio de Donões, Montalegre, para Santiago de Rubiás, aos oito anos. Começa por avisar: “Se é para falar do Couto Misto, fale com o meu marido”. Já lá vamos. A irmã já cá estava o que motivou a ida de Arminda para as terras fronteiriças. Foi para trabalhar nas “quintas de uns senhores com dinheiro”. Mal sabia que viria a ser a esposa do filho desses senhores.

Quase que não sentiu a troca de países. “É tão perto que quase não há diferença entre a raia e Montalegre”. O português desapareceu do sotaque, totalmente convertido ao galego. Em criança, iam todos juntos, espanhóis e portugueses, passear as vacas e só terminavam “quando vinha a guarda reclamar com a gente”.

Sobre a proposta que Luís García Mañá apresentou no Senado, só lhes ocorre um dizer, que é comum às aldeias raianas: “Somos todos irmãos. Nós vamos a Portugal e eles vêm aqui”. Agora, ainda fica mais fácil chegar a terras lusas. Os quinze minutos até Montalegre fazem-se melhor porque “arranjaram as estradas”. Há carne para comprar e feiras para ir do outro lado da fronteira. Sempre dá para sentir o ar que respirou até aos oito anos.

Há 52 anos longe das origens, Arminda já não sente que pertença a Donões. O Couto Misto, embora pouco, deu-lhe tudo. “Quando saio sinto falta disto. Quando estive na Suíça e na Alemanha tinha saudades”. O casal não foge ao rótulo do misto emigrante. Cabiam neste neste largo de Meaus, de forma quadrangular, onde falamos com Maria do Carmo, todos os habitantes das três aldeias que compõem o Couto Misto. Hoje está ela, um convidado basco e dois cães a deambular.

Maria do Carmo aterrou no Couto há pouco tempo. É um dos poucos casos de mistos que saem, mas que voltam. Grande parte deles já na casa dos 60 anos. Como aconteceu com Cesário, que abriu um negócio e comprou terras. Maria do Carmo veio descansar. É que se as três aldeias reuniam cerca de mil habitantes no início do século passado — cerca de 40 anos depois da assinatura do Tratado de Lisboa —, no princípio deste século não chegavam a 200 e agora são uma fracção desse número. “Estive 48 anos em Barcelona. Saí daqui com 15 anos. Passei também pela Suíça, aí foram quase DOIS anos. Fui para trabalhar, como quase toda a gente daqui”, relembra.

María do Carmo, Chelo, Marcial e Arminda fazem parte do lote dos que vão, mas voltam. Nem sempre é assim. Os filhos por lá ficaram. Barcelona, Ourense, Xinzo — que fica a 30 minutos do antigo enclave —, ou Madrid, são alguns dos destinos frequentes. “Eles vêm aqui, mas têm lá vida, tens que gostar muito para viver aqui todo o ano”. No Verão haverá mais gente. Voltam os filhos que não nasceram cá. No Verão, há autocarros que chegam com turismo e há mais vida. Nessa altura com as nomeações dos juízes honorários, o triângulo enche. Até lá, Maria do Carmo vai aproveitar a novidade que é viver na sua aldeia, afinal, “respira-se melhor”.

Cinco minutos de juventude

Se a ligação dos mistos com Portugal sempre foi de proximidade, que dizer da ligação literal a Tourém via Caminho Privilegiado. A aldeia do concelho de Montalegre é a única a norte do Gerês, e a placa que ainda sinaliza a “Rota do Contrabando” na praça central, deixa clara a ligação com as aldeias galegas.

E se até à década de 70, a travessia para a Galiza ainda era feita com regularidade, agora só mesmo em turismo. E um dos responsáveis é Fernando Carvalho, primeiro nome da Casa dos Braganças – uma unidade de turismo de habitação – e um dos atractivos da aldeia com pouco mais de cem habitantes. Mas a ligação ao Couto Misto é muito mais do que uma rota e a história documentada em livros. É também o presente e o facto do Couto Misto ser mais português todas as manhãs, de segunda a sexta. Todos os dias Fernando sai com um autocarro de Tourém para levar crianças e jovens à escola a Montalegre.

Hoje é domingo, o que significa que Fernando Carvalho só pegará no autocarro, que cruza todos os dias o Couto Misto, amanhã. Isto se houver autocarro. “Nos últimos dias tem sido com uma carrinha porque o autocarro está com problemas e encontra-se na oficina”. Para além de ser domingo, é dia de festa. É dia de Carnaval e há um desfile que anima as ruas estreitas de Tourém. Por lá também anda Fernando Carvalho, que conhece os cantos à casa e a casa também o conhece, a julgar pelos sucessivos contactos que tem com quem vai cruzando.

Há cada vez menos gente nos desfiles. A causa é a mesma das aldeias vizinhas. “Os filhos saem para estudar, muita gente para Lisboa, curiosamente, e depois só voltam esporadicamente”, comenta. Mesmo assim, haverá música depois do desfile e a carne, a ser preparada por portugueses e galegos no forno comunitário, faz com que haja um ajuntamento no pequeno largo da terra além-Gerês. Sacam-se concertinas e no isolamento das montanhas, há festa.

Às 8h, numa manhã nublada, o único autocarro que passa pelo Couto Misto, sai da Casa dos Braganças, em Tourém. Cinco minutos depois, sem atrasos, estaciona na praça central da aldeia. O transporte é utilizado para levar os miúdos até à escola, que de outra forma não tinham meio para lá chegar. Não há tempo a perder, até porque as aulas começam às 9h e até Montalegre distam 30 quilómetros.

Hoje, vão três passageiros na camioneta de Fernando Carvalho. “Costumam entrar mais aqui [em Tourém], mas hoje não vêm. Mas vamos lá que ainda temos que carregar algum pessoal”, realça sem tirar os olhos do relógio. O autocarro, apropriadamente apelidado de “Casa dos Braganças”, foi a única solução que Fernando Carvalho e a Câmara Municipal de Vila Real encontraram para transportar “a rapaziada da zona”. Para chegar a Montalegre há outro percurso pelo qual não é necessário pisar solo espanhol. “Prefiro vir por Espanha. A estrada é melhor e às vezes há um pessoal que aproveita a boleia”, reitera o motorista.

À passagem por Rubiás e depois por Santiago de Rubiás, não se avista ninguém nos apeadeiros. Nem nas ruas. A chuva não convida os moradores a verem passar o autocarro da juventude pelas aldeias durante cinco minutos. A zona fica mais jovem, de segunda a sexta-feira, entre as 8h25 e as 8h30.

Para lá do Couto Misto, já em território português, Fernando Carvalho buzina para anunciar a chegada. Sobe mais um. E depois mais dois. Poucos para um autocarro com uma lotação a rondar os 30 lugares. De Sendim com destino a Montalegre, não há mais paragens. “Está tudo. Agora deixo-os na escola e depois volto às 17h para os trazer para casa. É isto todos os dias”.

Texto editado por Lurdes Ferreira